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Ao Correr da Pena

Ao Correr da Pena

12
Jun18

13 - A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA de SALVADOR DALI

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 Sentem-se que vou-vos contar uma história. Ou seria um sonho. Ou melhor uma história sobre um sonho. Eu era a rapariga de Ampurdão e nos meses de verão a maior parte dos dias são de muito calor que tudo seca. Quase não se vê verde; é castanho e disforme.

 

 

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Rapariga de Ampurdão

 

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 Port Lligat ao pôr-do-sol

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 Tudo se passou num desses dias em que ia de carroça de Port Lligat para Cadaqués. Eu ia mas não ia. A carroça andava e não andava; estava lá e não estava. Era uma carroça fantasma.

Deu-me um sono tão grande que com o calor adormeci. De repente comecei a sonhar. Sonhei que era cozinheiro. Cozinheiro especializado em ovos estrelados. O chef passava o tempo a gritar da cozinha: Salvador os ovos estão moles, parecem o queijo camembert; quero os ovos prontos a comer mas não tão moles.

 

 

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 A carroça fantasma

 

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O sono

 Faz os ovos como quiseres. Faz no fogão; faz ao Sol; apresenta-me os ovos estrelados sem prato; mas ovos estrelados não são queijo.

 

Fui até à janela olhar para o mar; estava tanto calor. Sonhei que era um homem novo. Que estava a nascer dum ovo. O meu nascimento estava a ser observado por uma criança. Não estava a ser um nascimento fácil.

Era a criança geopolítica observando o nascimento do homem novo. O que terá a criança pensado?

 

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 Ovos estrelados sem prato

 

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 Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo

Que sonhos terá esta criança para o futuro?

Que homem novo será este que está já a nascer adulto?

 Ao sair do ovo sonhei que era Santo António. Estava a meditar no deserto, que toda a Espanha é um deserto.

Eis senão quando aparecem cavalos e elefantes, com estátuas, haréns e riquezas. Todo o tipo de tentações a que um santo homem está sujeito. O que me valeu foi ter empunhado a cruz de Cristo de São João da Cruz para me esconjurar de tamanha maldição.

 

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 A tentação de Santo António

Tão poderosa é que os elefantes se transformaram em elefantes trombones. Cada um dava uma nota mais melodiosa que o outro.

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  Cristo de São João da Cruz

 

Os elefantes eram observados por veados com harpas em vez de hastes que passeavam-se no meio de cisnes. O reflexo dos cisnes num lago eram os corpos dos elefantes. Só em sonhos, elefantes e cisnes são o reflexo uns dos outros.

 

Desapareceram os animais e a paisagem ficou vermelha, com sombras de pôr-do-Sol. Os elefantes transformaram-se em borboletas esvoaçantes. As borboletas eram velas de moinhos e apareceram crianças da natureza, puras como só as crianças são, sem o enigma do desejo.

 

 

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Elefantes trombones

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O enigma do desejo – Minha mãe, minha mãe, minha mãe

 

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Paisagem com borboletas

 

Eu andava a correr atrás das borboletas, sonhava que eram moinhos e eu, Dom Quixote; isto passou-se quando eu próprio tinha seis anos.

Nesse tempo tudo estava certo.

Ainda o grande alquimista não tinha modelado a linha do tempo. Havia passado, presente e futuro.

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Crianças da natureza

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Eu próprio aos seis anos

 

Com seis anos, o meu passado vinha do meu legado árabe, do meu desejo de luxo, de cores, de roupas caras. Eu tinha sonhos com objetos estranhos: telefones em forma de lagosta, sapatos que eram chapéus, sofás vermelhos com a forma dos lábios da Mae West, a qual vi no cinema. 

Eu não tinha seis anos.

Sentei-me no sofá e fui engolido.

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Telefone lagosta

 

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Sofá Mae West

 

 De repente estava na estação de comboios de Perpignan e era um toureiro, que os há bastantes em Espanha, de bigodinho fino e espetado.

Fiquei alucinado quando o comboio estava a chegar à gare, mais o barulho das pessoas e a confusão; gentes a chegar e a desaparecer.

 

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Estação de comboios em Perpignan

Sonhei que era Gala.

Tinha um corpo bonito, vivia com um poeta e escritor famoso, Paul Eluard.

 

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 A minha mulher nua, observando o seu próprio corpo

  

Gostava de me admirar nua, observar o meu próprio corpo, não num espelho qualquer; eu estava de frente para o espelho mas via as minhas próprias costas.

Sonhei com manchas, com árvores a arder; sonhei com Cristo cruxificado; sonhei que era mãe e estava com o seio de fora para amamentar um filho que nunca tive o qual me chamava carinhosamente de Galarina.

No meio desta confusão toda eu já não sei se viajava no espaço se no tempo. Eu era Gala e sonhava que era Gala. Eu era esposa do Paul e vivia com o Salvador.

 

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Galarina

 

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 O sonho de Gala

 

 

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O Cristo de Gala

 

Estendi a mão e os remorsos da consciência assaltaram-me.

 

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A mão – os remorsos da consciência

 

Tudo eram esferas à minha volta que eu tentava controlar.

 

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 Galeteia de esferas

A minha vida nessa altura transformou-se e eu vi o rosto da Guerra.

 

 

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O Rosto da Guerra

 

 

Tive alucinações totais ou parciais em que voltava à Tartária e era novamente Elena Ivanovna Diakonova.

Sempre que tocava piano sonhava com os rostos de Lenine em cima do piano. Depois casei com Dali e tudo se acalmou.

 

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Alucinação parcial. Seis aparições de Lenine sobre piano

 

 A partir daí deixei de ser a fera que tinha sido.

Deu-se a acomodação do desejo.

 

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A acomodação do desejo

 Quando for a minha ascensão, já tenho quatro poltronas no céu à minha espera.

 

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 Ascenção

 

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  Quatro poltronas no céu

Uma para mim, outra para Dali e as outras duas para os nossos sonhos.

 

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 Metamorfose de Narciso

 

Já não era Gala. Sonhei que era Narciso e me metamorfoseei.

 

 

 

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 O Ovo Cósmico

Nessa metamorfose sonhei que era Einstein, o dono do ovo cósmico, o dono do espaço e do tempo. Transformei o tempo; agora é mole e moldável; deixou de haver diferença entre passado e futuro.

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Relógios moles

 

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Relógio mole no momento de sua primeira explosão 

 

 

 

 

Os relógios são moles e em qualquer momento pode-se dar a sua primeira explosão.

 

 

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O homem invisivel

 

A harmonia das esferas foi alterada.

 

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A harmonia das esferas

 

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O alquimista

 

           

Eu tornei-me no alquimista e quando me apetece transformo-me no homem invisível.

Fiz a separação do átomo.

 Vi a sua constituição.

 

 

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À procura da quarta dimensão

 

Fui à procura da quarta dimensão, o espaço e o tempo.

Fiz a teoria para o grande cogumelo atómico. Abri a caixa de Pandora e soltei as três esfinges de Bikini.

 

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As três esfinges de Bikini

 

Quem serão elas? Três demónios? Três árvores que são três cérebros; três dores de cabeça.

Estes sonhos são os meus pesadelos.

Isto tudo aconteceu num sonho, nos primeiros dias de primavera em que encontrei um relógio mole, ferido, já pelo calor que eu não sentia mas sonhava que vinha aí.

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Os primeiros dias de Primavera

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Relógio mole ferido

  

Foi um sonho causado pelo voo de uma abelha ao redor de uma romã um segundo antes de acordar.

 

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Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar

 

Esse segundo nunca passou.

Tudo é um enigma sem fim.

 

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Enigma sem fim

Nós sonhamos realidades que existem apenas quando sonhamos?

Será a nossa vida o sonho de alguém?

 

Tudo se desintegra e volta a acontecer.

As ideias, as memórias, os átomos, a matéria. Tudo acaba por se desintegrar.

O que fica?

Tudo na vida são sonhos e o que fica é uma saudade.

 

 

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A separação do átomo

 

Fica a persistência da memória.

 

 Março de 2014